24 de novembro de 2009

REFUNDAR A UNESCO?

Quem espera, hoje, a palavra da UNESCO ?
Face à profunda crise em que o mundo vive, crise que é inédita, sistémica e global, será que alguém espera as respostas da UNESCO? Que alguém aguarda as suas propostas? Que alguém se inspira na sua visão?
Temos que reconhecer que - apesar dos seus inúmeros, e sem dúvida extremamente meritórios, programas – não é isto que acontece. O que revela o percurso declinante da mais importante instituição mundial para a cultura, a educação, a ciência, a comunicação e os direitos humanos.
E, no entanto, esta instituição – fundada há quase 64 anos, em Novembro de 1945 – já cumpriu, e bem, esse papel. Fê-lo assumindo durante várias décadas a ideia que a educação, a ciência e a cultura são meios decisivos para a obtenção da prosperidade e da paz, e para contribuir, como justamente se diz no seu «Acto Constitutivo» para o « respeito universal da justiça, da lei, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem discriminação de raça, sexo língua ou religião.»
Hoje, a UNESCO encontra-se perante uma difícil mas incontornável encruzilhada: ou continua o trajecto que cada vez mais a tem fechado sobre si mesma, e a tem debilitado na sua capacidade de falar ao mundo. Ou, inspirando-se no melhor da sua história, se revitaliza abrindo-se às exigências de uma época e de um mundo que mudaram muito nos últimos tempos.
Só assim, só avançando com uma nova visão que seja mobilizadora para os seus agentes e que seja atractiva para a opinião pública e para os cidadãos, é que a UNESCO conseguirá reconquistar a inspiradora liderança mundial que já exerceu.
Essa liderança, contudo, só verá a luz do dia se começar por ser uma liderança de ideias e de causas, efectivamente capaz de abrir novos horizontes sobre o mundo e as suas mais perturbantes transformações, e de o fazer numa perspectiva tão global como verdadeiramente civilizacional.
Depois de décadas em que o âmbito da acção da UNESCO se alargou mas também, de algum modo, se banalizou, é sem dúvida altura de voltar ao essencial, com a coragem das prioridades que a situação exige.
O último ano tem exibido diariamente a desorientação geral em que todos vivemos: a falta de referências e de bússolas que dêem sentido à vida e ao mundo; os sofismas dos “especialistas” fechados em modelos artificiais, que nada prevêem e quase nada explicam; o impasse das políticas mundiais que possam responder à globalização económico-financeira, inventando novos equilíbrios entre o direito e o mercado; a frivolidade dos “media”, cada vez mais reféns do instante e do sensacional; a dificuldade das sociedades em terem uma visão de conjunto sobre si próprias, como se estivessem cegas pelo presente e não tivessem história nem futuro.
A crise que o mundo vive não será superada sem que se enfrentem estes problemas. Por isso a UNESCO deveria ser, no nosso mundo, tão ou mais importante do que o FMI. É esse o desafio que ela enfrenta.
A nova Directora-Geral, Irina Bokova, candidatou-se ao cargo que agora exerce com uma visão em que defendia «um novo humanismo para o século XXI». A expressão pode ser esta ou outra. Mas a intenção é boa, oportuna e vital, porque aponta para o plano dos valores como central para o futuro da humanidade.
De valores que, mais do que um eco do passado da humanidade, sejam sobretudo capazes de abrir horizontes ao seu futuro, e de dar forma – ao lado da política e da economia – a um novo, a um terceiro pilar da globalização: o da cultura, no sentido mais amplo do termo.
A UNESCO do século XXI precisa de uma refundação. Isto é, de una nova definição da sua missão no mundo, à luz das mutações que ocorreram nas últimas décadas e das inéditas interrogações que surgiram com a crise que se tem vivido. Ao seu “acquis” normativo, tão importante nos domínios do património, da diversidade cultural ou dos direitos humanos, é preciso juntar, agora, uma exigência mais prospectiva, assumindo-se a UNESCO como um verdadeiro laboratório de ideias de vocação universal.
(DIÁRIO DE NOTÍCIAS e LE MONDE.fr, 24.11.09)

9 de setembro de 2009

PARA ALÉM DO VOTO

A agenda política dos próximos tempos é extremamente exigente. Devido à crise que vivemos e ao facto de, ao contrário do que seria de prever, a polarização ideológica não se ter acentuado com o desenrolar da crise.
E não se acentuou porquê hoje não só não se dispõe de nenhum modelo económico alternativo ao capitalismo, como o socialismo perdeu o elemento que sustentava e dava coerência às suas causas fundamentais (igualdade, solidariedade, etc.), e que era a crença no progresso.
Essa crença, que nascera no século XVII e que desde então dinamizou todos os impulsos de emancipação, dissipou-se no século XX. Primeiro com as grandes catástrofes humanas (holocausto, guerras), que puseram em causa a sua realidade, e depois com a globalização e as transformações financeiras do capitalismo, que estropiaram o seu sentido.
Perdeu-se a confiança numa evolução positiva do mundo. Desapareceu a certeza que o dia de amanhã será melhor do que o dia de hoje. Deixou de haver finalidades mobilizadoras para a humanidade, e o pessimismo e os princípios “de precaução” multiplicam-se por todas as áreas, a comprová-lo.
Com tudo isto, a esquerda e a direita como que trocaram de papéis. A esquerda perdeu a sua inspiração optimista e as suas genéticas ambições de mudança, que foram tomadas pela direita e reconfiguradas à luz dos objectivos do capitalismo financeiro.
Isto deixou a esquerda atada a um conservadorismo defensivo, que se define por intenções sociais de natureza mais reparadora do que verdadeiramente reformista. Como se o mundo se tivesse tornado num lugar perigoso e desamparado, e um misto de consolo e de reparação fosse tudo aquilo que hoje se pode proporcionar às pessoas. Daí que a esquerda procure agora na fracturante “agenda dos direitos” (casamentos gay, eutanásia, etc.) uma nova compensação para as suas dificuldades mais estruturais, num “remake” do que já acontecera com o tema europeu nos anos 80 e 90 do século passado.


O PONTO CEGO
Entretanto, o sentimento que mais se generalizou na relação dos cidadãos com a política e com os governos, foi o da incapacidade do poder.
A descredibilização que atinge a política não é pontual nem subjectiva. É um processo que ultrapassa as circunstâncias, os partidos e as personalidades. E que radica na constatação quotidiana que os políticos, seja qual for a sua ideologia, não são capazes de resolver os principais problemas do mundo, seja no domínio do emprego ou da saúde, da educação ou da finança.
Isto afecta profundamente a democracia, quer na forma como as pessoas a avaliam, quer na forma como as pessoas participam nela. E atinge, fragilizando-o, o instrumento a que se pretendeu reduzir a democracia: o voto, as eleições.
Contudo, esta fragilização do voto não deve ser vista como um inevitável empobrecimento da democracia. São vários os estudos (nomeadamente os de Pierre Rosanvallon e da sua equipa) que têm mostrado que ela deve antes ser entendida na perspectiva do seu efectivo enriquecimento.
É que - e este aspecto é importante - o desgaste da relação representativa e a erosão da confiança nos eleitos não têm sido acompanhados por um maior desinteresse ou uma maior apatia por parte dos cidadãos. Pelo contrário, tem-se assistido à emergência de novos comportamentos políticos que visam revitalizar a democracia, com actos que ora são de mera avaliação crítica, ora se pretendem de vigilância mais escrutinadora, ora se assumem de bloqueio comprometido. De tudo isto temos tido em Portugal, nos últimos anos, uma variada e interessante experiência.
O que importa, agora, é articular estes diversos elementos numa nova compreensão da democracia, que acolha toda a sua complexidade contemporânea e reforce a sua legitimidade. Este reforço implica um passo muito preciso: compreender e desmontar a ficção que levou à identificação (tão automática quanto infundada) da maioria com a vontade geral, como se fossem a mesma coisa, como se o maior número de votos pudesse valer, sem atritos ou controvérsia, pela sua totalidade.
Para se revitalizar a democracia é preciso ver que o seu ponto fraco – que tem sido um ponto cego – está antes do mais aqui, no modo como tradicionalmente se estabeleceu que a parte vale pelo todo. E, depois, no corolário que estabeleceu que o momento eleitoral vale para toda a duração do mandato.
Isso acabou. Os cidadãos das democracias do nosso tempo sacodem cada vez mais esta dupla ilusão. E, neste processo, tudo muda: a noção de maioria perde valor, a noção de mandato perde consistência, e ambas perdem sentido, o que transforma as eleições num mero processo de designação dos governantes.
Vale pois a pena, especialmente no actual contexto político nacional, ganhar alguma distância em relação à “espuma dos dias” e reflectir sobre estas mudanças, que traduzem um alargamento da afirmação do individualismo contemporâneo, nomeadamente em tudo o que se refere ao comportamento político dos cidadãos.
Um alargamento que traz consigo novas formas de legitimidade que é preciso acrescentar à legitimidade eleitoral – desde logo aquela a que se pode chamar uma legitimidade “de proximidade”, que é exactamente onde cada vez mais se faz e desfaz a relação de confiança entre o poder e os cidadãos.

AS ARMADILHAS DO VOLUNTARISMO
São muitos os factores que hoje tornam a actividade política extraordinariamente difícil: a globalização e a perda de soberania das nações, o individualismo e a erosão da representatividade, a mercantilização da informação e a sua tabloidização.
Não falta quem pense que estes, como outros factores (a desideologização das sociedades contemporâneas, a intensificação quase religiosa do consumo, a absorção do futuro no curto-prazo, a hegemonia financeira da vida económica, etc.), inviabilizam a política, condenando os que a praticam a um papel de desesperados ou inconscientes bodes-expiatórios de uma sociedade que, na verdade, parece que desistiu de se compreender a si própria.
Com todas estas dificuldades, a margem de manobra tornou-se de facto muito estreita. Mas essa margem existe, desde que – e este é o ponto fundamental – se corte com a tentação vanguardista que, tanto à direita como à esquerda, continua a pensar a política como se ela estivesse acima, ou à frente, da sociedade. Até porque, se alguém vai à frente, é claramente a sociedade, não é a política.
Esta visão “heróica” da política (como inspiradamente lhe chamou Daniel Innerarity) deve ser abandonada, porque bloqueia todas as articulações vitais com a sociedade. Temos de substitui-la por uma concepção aberta e audaz, que abrace o pulsar das ideias em vez de se agarrar à aridez ideológica, que troque a obsessão dos consensos pelo acolhimento da diversidade, que abdique de pretender dirigir a sociedade sem, claro, desistir de influenciar o seu caminho e o seu destino.
Goste-se ou não, é esta a direcção que as democracias contemporâneas têm seguido. Por isso, as lideranças do futuro terão que resistir à armadilha do voluntarismo, seja na forma que conduz a contraproducentes provas de força com a sociedade, seja quando ele se refugia num qualquer tipo de determinação mais ou menos iluminada.
São outras as qualidades que se requerem aos reformadores do nosso tempo. Acima de tudo, o que conta é mostrar capacidade de composição com a própria sociedade: na sua diversidade, na sua fragilidade e na sua complexidade. Não só porque o voluntarismo afasta e exclui, enquanto a composição motiva e integra, mas também porque só assim se consegue criar o espaço de manobra necessário para lidar com os problemas do nosso tempo.
Obama compreendeu isto, Sarkozy não. É o que faz do primeiro um líder inspirado, capaz de abrir novos caminhos, e do segundo um líder perdido num labirinto de impulsos e de incoerências. E talvez este exemplo ajude a compreender o essencial: é que, se o reformismo é – e é de facto – uma arte muito difícil, ele tem contudo um segredo. E esse segredo está em conseguir construir ao mesmo tempo que se corta, em combinar a visão e o detalhe, o global e o sectorial, o longo prazo e o imediato.
Tudo isto são coisas que talvez não se decidam em campanhas eleitorais. Mas é nelas que se começa a perceber se alguém – e quem – tem a chave deste segredo. Como nas próximas semanas certamente os Portugueses irão perceber.
(DIÁRIO DE NOTÍCIAS,10.09.09)

8 de setembro de 2009

O PODER, AFINAL, PARA QUÊ?

A crise que temos vivido no último ano mostra bem como há sempre dois modos de olhar para o que acontece, sobretudo quando os acontecimentos põem subitamente em causa ideias que nos são familiares e tornam desajustada a linguagem a que estamos habituados. Num, domina a preocupação em repor o mais rapidamente possível a normalidade anterior, sem dar grande importância ao que a interrompeu. No outro, o que conta são os sinais do que se anuncia, quer se trate de pequenas alterações ou de autênticas rupturas.

O primeiro esgota-se na actualidade e nas narrativas mediático-políticas do dia-a-dia. Oferece muita distracção, mas bloqueia a compreensão do mundo. Fala-se da crise actual, por exemplo, como se tudo não passasse de um filme, entre a “chegada” e o “fim” da crise. Durante meses, o assunto foi saber se ela já tinha chegado e, depois, passou a ser saber se ela já tinha partido! Tudo ao som de comentários e previsões de “especialistas” que antes não foram capazes de prever nada, mas mesmo nada do que aconteceu.
O segundo modo de olhar esforça-se por compreender o presente, mesmo que seja incómodo, e por explorar o futuro, mesmo que pareça inquietante. Procura decifrar o que McLuhan designou como o presente “invisível” – algo que já está aí, a condicionar as nossas vidas, os nossos problemas e as nossas expectativas, mas sob formas que, tanto individual como colectivamente, ainda não somos capazes de ver ou formular de um modo claro.

O contexto eleitoral tende, naturalmente, a valorizar o primeiro modo de olhar. Mas é o segundo que nos permite avançar, e nos revela os indícios de uma autêntica mudança de paradigma. Uma mudança que impede qualquer retorno ao modus vivendi das últimas décadas, e torna perigoso que se continue a pensar e a falar a partir dos seus estafados lugares-comuns.
O desafio é pois o de, para lá da crise e do seu espectáculo, se procurar compreender as metamorfoses do mundo que mais condicionam as nossas opções, por mais nacionais que elas pareçam. É o que veremos a seguir. Amanhã abordaremos as suas implicações na democracia ao nível das convicções, dos comportamentos e das lideranças.


A CRISE – E O QUE ELA ESCONDE
A crise aberta em 2008 não foi, como em geral se diz, um “acidente” provocado pela ganância de uns quantos gestores financeiros da City e de Wall Steet, que terão perdido a cabeça e enganado toda a gente com artimanhas sofisticadas que, mais tarde, se revelariam catastróficas no plano económico e social.
Foi muito mais do que isso. Como os dados que vão sendo apurados claramente indicam, esta crise nasceu na própria economia, num modelo de crescimento económico que foi inspirado e incentivado por políticas muito precisas, primeiro nos EUA e depois por todo o mundo.
Quando a progressão dos salários estagnou devido às pressões da globalização, este modelo apostou tudo no crédito para, através da procura interna, animar a economia, chegando-se à extraordinária situação de se articular o valor dos empréstimos concedidos, não aos rendimentos de quem comprava, mas ao valor dos bens comprados.
A América, como disse Alan Greenspam “queria viver a crédito”. Um crédito que, é bom lembrar, só era possível devido aos depósitos chineses (decorrentes das suas exportações), dando assim forma ao que M.Schularick e N.Ferguson chamaram a “chinamérica”.
A finança, trocando cada vez mais as suas obrigações para com a economia real por actividades “criativas”, fez o resto. Com a criação dos “subprime” e dos “arm loans”, passando pelas cada vez mais delirantes retribuições de capital que a história do capitalismo conheceu, perdeu-se qualquer sentido da realidade. Em 2008, dos cerca de 2.300 mil milhões de euros que se transaccionavam diariamente nos mercados financeiros, apenas 2,7% correspondiam a bens e serviços reais!
A crise que se tem vivido não é, por isso, uma crise passageira que a massiva transformação de dívida privada em dívida pública possa resolver. Esta indispensável operação apenas impediu o pior, mas até ao momento ninguém mexeu a sério no essencial – basta olhar para a falta de concretização das medidas anunciadas no último G20, há mais de cinco meses.
O modelo económico das últimas décadas parecia uma evidência, mas era uma ilusão: concebia o crescimento no quadro de um consumo sem limites que, por sua vez, era animado por um crédito inesgotável. Foi este modelo que entrou em colapso. E, com ele, entrou também em colapso uma visão do mundo e a sua base civilizacional. É isto que confere à actual crise um significado inédito, e impõe uma prudente avaliação das suas múltiplas e insuspeitadas consequências.


SEM SOLUÇÕES NEM ALTERNATIVAS

Como há dias perguntava Andy Beckett no Guardian, como é que é possível que uma crise desta natureza, dimensões e consequências, a maior que o capitalismo viveu desde 1929, tenha completamente escapado à esquerda, ao ponto de esta, nas últimas eleições europeias, ter conhecido uma das suas maiores derrotas?
Porque o facto, hoje, é este: o capitalismo não parece capaz de encontrar soluções para a crise, mas também não existem alternativas visíveis, estruturadas e credíveis que o desafiem.
Há, claro, algumas razões para isto. Em primeiro lugar, generalizou-se a ideia que a queda do Muro de Berlim foi a vitória de uma forma de democracia que encontrava a sua forma final na pura e simples identificação com o mercado. Seguidamente, não se compreendeu que a globalização minava na sua raiz o compromisso social-democrata entre o trabalho e o capital, deixando o trabalho preso às suas raízes nacionais enquanto o capital se tornava cada vez mais livre num tabuleiro cada vez mais mundial. E a terceira razão encontra-se na identificação dos valores da modernidade com os da metamorfose do capitalismo na sua versão financeira – e aqui a “Terceira Via” inspirada por Tony Blair tem especiais responsabilidades. E tudo isto, note-se, sem nenhum pressentimento do brutal impacto que as economias emergentes (China, Índia, Brasil, etc.) viriam a ter no começo do século XXI.
É preciso sublinhar ainda uma outra razão, que está na forma como, nas décadas de 80 e 90, o tema europeu funcionou como compensação das dificuldades que o socialismo enfrentou. Com Mitterrand, Soares ou González, num primeiro momento, e depois com Schröder,Jospin ou Guterres, procurou-se fazer da construção europeia o ersatz das ilusões perdidas do socialismo democrático.
Fez-se todavia esta substituição sem se avaliar bem a resistência que, pela configuração doutrinal que entretanto tomara, a Europa revelava aos valores da esquerda. E de facto, só por milagre é que uma Europa que esquecia a sua história ao mesmo tempo que adoptava docilmente o mercado (na versão imposta pelo capitalismo financeiro) poderia evitar embaraços ao socialismo europeu. A “estratégia de Lisboa”, que há quase uma década vive no limbo das boas intenções, ilustra eloquentemente os equívocos que assim se alimentaram na transição para o séc. XXI.


AS ALAVANCAS QUE FALTAM
Deste modo, o socialismo democrático e a social-democracia desarmaram-se, hesitando nos seus valores e abdicando de uma reflexão crítica sobre o capitalismo. Esta falta de reflexão salta agora aos olhos de todos, quando se procura repensar o Estado providência, quando se trata de conceber novas formas de lidar com a globalização, ou ainda quando se quer definir uma visão diferenciadora da Europa.
A “ideologia dominante” do capitalismo financeiro foi abalada, mas não foi desafiada por nenhuma alternativa que os cidadãos considerem interessante, consistente, motivadora.
Esta reflexão, e as propostas que daí podem resultar, são as alavancas que faltam à esquerda democrática na actual crise. Clarificar o sentido do interesse geral, redefinindo o âmbito das esferas pública e privada. Repor a finança ao serviço da economia e das pessoas. Repensar o desenvolvimento, tanto na sua articulação com o emprego como com os imperativos ecológicos. Combater as desigualdades, sejam elas salariais ou de rendimento, de acesso ou de estatuto. Avançar com um novo internacionalismo, porque hoje nenhum problema tem solução nacional. Revitalizar a democracia, valorizando as diversas formas de legitimidade que a atravessam…eis alguns dos tópicos dessa agenda.
Para os tratar vai ser precisa uma forte motivação política, e a consciência que se trata de um trabalho intelectual de fundo, que implica não só uma genuína atenção às dinâmicas da sociedade como uma continuada pedagogia da opinião.
Uma tarefa difícil, complexa… mas incontornável, tanto para a esquerda democrática, como para a própria viabilidade do regime democrático. Porque sem uma nova visão, e sem respostas sérias para os problemas mais estruturais… o poder, afinal, serve para quê?
(DIÁRIO DE NOTÍCIAS,09.09.09)

25 de abril de 2009

NOVA REPÚBLICA, PRECISA-SE

Diz-se que os portugueses apreciam governantes de pulso forte. Concorda?

O que os portugueses apreciam são governantes que saibam combinar a
capacidade da boa decisão com o efectivo conhecimento dos problemas. Mais do que de "pulso forte", os portugueses apreciam quem tem uma visão de futuro do País, uma visão estruturada, integradora, e que sejam capazes de a partilhar, motivando os cidadãos.

Vive-se essa realidade actualmente em Portugal com José Sócrates, mas a contestação crescente à sua forma de exercer o poder política é visível. Teria sido possível outro modo de exercer a governação?

São sempre possíveis vários estilos, mas é bom ter em conta que o exercício do poder é hoje uma arte muito difícil, e por diversas razões. Em primeiro lugar, porque nos últimos 20 anos se desenvolveu uma ideologia de "menorização" da política, segundo a qual o mercado resolveria tudo e bem. Viu-se!... Depois, a invocação dos constrangimentos europeus à mais pequena dificuldade criou uma impressão de impotência dos governos nacionais, que a globalização veio reforçar. E isto no contexto de uma crise que está a abalar todas as certezas das últimas décadas. A situação é, pois, propícia a…

Essa contestação é real, nascida no eleitor, ou empolada pela comunicação social?

Claro que tem sempre uma base real. A crise é bem real, local e globalmente, todos o sentimos. Mas também não podemos esquecer que a comunicação social - como acertadamente explica Castells - vive fundamentalmente de três coisas: do acontecimento, desprezando a sua explicação; da fulanização, desvalorizando os projectos e as ideias; e do conflito, secundarizando ou ignorando o seu contexto. Goste--se ou não, é com isto que é preciso saber lidar, com espírito aberto e com sentido pedagógico.

Ao fim de 35 anos de democracia parece que os partidos políticos com representação parlamentar já entraram na terceira idade. Estarão esgotados na sua expressão da vontade popular?~

Os partidos estão, todos eles, muito fechados em si próprios, nos seus problemas e interesses. Como já uma vez disse, entrámos no século XXI com partidos que não querem sair do século XIX. O que, naturalmente, desmotiva os cidadãos, hoje divididos entre solicitações muito diversas e com um quotidiano extremamente difícil. Mas a sociedade - a que, e bem, se chama "civil" - reserva sempre surpresas… às vezes grandes surpresas! Precisamos de partidos que sejam simultaneamente antenas da sociedade e laboratórios de ideias.

Nascidos num tempo em que a esquerda e a direita eram palcos com uma clara definição, qual a razão para os partidos políticos buscarem o centro como modo de responder ao eleitor?

A atracção pelo centro tem resultado, entre outros factores, da indiferenciação ideológica, da fragmentação social e da segmentação eleitoral, não se esqueça que é o centro que faz, ou "compõe", as maiorias. Mas pressinto que o tropismo, a atracção centrista, já teve melhores dias…

A passagem à História dos líderes carismáticos que dominaram o cenário da política (Soares ou Cunhal, por exemplo) não fez nascer lideranças com o glamour necessário para que a política interesse ao cidadão. Será esta a realidade?

O que aconteceu, e aumentou o fosso entre a política e os cidadãos, foi também que os políticos se tornaram nos bodes expiatórios de quase tudo o que corre mal. Mas isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque eles próprios abdicaram, perante a força dos "comandos financeiros", do poder legítimo que os eleitores lhes delegaram, sem no entanto desistirem, digamos, do palco. Tornaram-se assim na face visível - excessivamente visível, sem dúvida - do problema. Mas, como tantas vezes acontece, a face invisível é muito mais interessante…

A fixação dos movimentos sociais como expressão que se substitui aos partidos parece estar a acontecer. É a resposta dos tempos ou será efémera?

As pessoas, as sociedades, procuram sempre, em cada momento, alternativas àquilo que não as satisfaz. E nem o que surge está condenado a ser efémero, nem o que já existe tem garantias de eternidade. Ao contrário do que tantas vezes se diz, os partidos não são a "essência" da democracia - se existe uma tal essência, ela encontra-se na liberdade de expressão e na escolha do Governo pelos cidadãos através do voto livre.

E qual é a solução ao nível político?

O facto é que, até hoje, não se descobriu nenhuma alternativa realista aos partidos, pelo que é neles que continua a encontrar-se a chave da revitalização da democracia. E quem é que não vê que no "criticismo" dos partidos se esconde, muitas vezes, um demissionismo tão conformista como cómodo?

De onde vem o sucesso de protagonistas do passado, como Manuel Alegre, que se beneficiam dessa "onda" antipartidária?

Não são os "protagonistas do passado" que contam, são os protagonistas com história, o que é bem diferente. Porque a história é fonte de compreensão, que é ainda o que as pessoas mais procuram. O sucesso de que fala decorre disto e de uma forte afirmação no registo dos valores. Mas atenção, valores sem programa de acção podem ser, em política, um caldo de equívocos sem fim…

Que reformas aponta como necessárias para o estado deste Estado?

Portugal precisa de um novo desígnio, de algo que, como um íman, concite uma grande convergência de vontades e de sonhos, de energias e de ideias - é o que já tenho chamado o desígnio de uma "Nova República". Mais do que de comemorações mais ou menos formais, era à volta desta ideia que se podia organizar o Centenário da República, que é já para o ano. E esse desígnio poderia, a meu ver, dar forma ao salto que todos ambicionamos dar no caminho de um país mais qualificado.

E tem propostas concretas?

Do que, a meu ver, Portugal precisa é de uma qualificação estrategicamente pensada, capaz de concretizar em objectivos, em timings e em financiamentos o "triângulo mágico" da qualificação. Isto é, que seja simultaneamente uma qualificação do território, das instituições e das pessoas. É isso um desígnio, algo que conquiste magneticamente as pessoas, que projecte o País no tempo, com um sentido de empenho, de construção e de fraternidade.

Acredita, então, nessa Nova República como uma solução para Portugal. Um projecto quase antigoverno?

É por aqui que, sem quimeras tecnológicas, seria hoje possível retomar a utopia educativa dos fundadores da República. Essa utopia, esse desígnio, poderia dar corpo a um Conselho de Ministros e a um vice-primeiro-ministro que lhe fossem especificamente dedicados. A uma dotação dos fundos europeus que ultrapassasse os 50% do financiamento global. À consagração dos professores como os "heróis do nosso tempo", que enfrentam todas as crises de que todos fogem: da autoridade, da família, da democracia, etc. À aposta de tirar as nossas universidades do fundo de todos os rankings e de criar uma que disputasse os primeiros lugares. À ambição de retomar criativamente, em termos de projecção internacional, as nossas raízes mundiais. Ao impulso de fazer da comunicação um instrumento de emancipação dos cidadãos, não da sua idiotização. E podíamos continuar, pensando sobretudo nos jovens, numa Nova República centrada no seu futuro.

A adesão à União Europeia fazia prever uma realidade para Portugal bem diferente da que a actual crise provocou. Essa situação desmotivará a participação eleitoral nas europeias?

Estou cada vez mais convencido de que o que falta na política é boa oferta, é inovação e qualidade. É essa, parece-me, a principal lição da eleição de Obama. Não foi a Internet, como muitas vezes se diz, que o levou à vitória, mas a sua visão, os seus argumentos e o seu estilo. Onde não há entusiasmo, não é a Internet que o cria.

Qual a razão de a participação do cidadão português no projecto europeu ser demasiado diminuta face aos benefícios que já auferiu?

A integração europeia teve bons resultados para Portugal, mas também estimulou uma irresponsabilidade, digamos, adolescente, criando a ideia de que há sempre alguém para ajudar, que aparece sempre um "Brasil" quando as coisas são difíceis. Foram, têm sido em média cerca de dez milhões de euros por dia… e assim será até 2013! É hoje incontroverso que houve desatino, muito betão (estamos no podium europeu das auto-estradas!) e pouca, muito pouca, aposta na massa cinzenta. Muita pressão de obra e de imediato, e pouca visão de futuro e de longo prazo. A Europa passou a ser um dado adquirido, não se vive como um projecto que mobilize as pessoas, que apele à participação.

Compara-se muito esta crise à de 1928/9 mas a de 2008/9 não possui uma dimensão global que questiona de um modo muito mais vigoroso os valores em que está fundada a actual civilização ocidental?

Sem dúvida, a novidade está, em primeiro lugar, em que esta é a primeira crise simultaneamente global e estrutural do capitalismo. E, depois, em que ela aponta para uma mudança de paradigma, não no sentido de um modelo alternativo - que é preciso reconhecer que não existe -, mas no sentido de alterar profundamente os padrões de vida dominantes, no que se refere ao consumo, ao valor do trabalho, às rotinas do crédito, etc. É por isso que se pode, com propriedade, falar de crise de civilização. E, para lá disso, como J. Attali defende no seu La crise, et aprés" (que acaba de ser traduzido para português), ela impõe um reequilíbrio fortemente regulamentador ao nível global, entre o poder dos mercados e o poder da democracia, do Estado de direito. Sem esse passo, é de temer que de pouco servirão os planos que por todo o lado se têm anunciado em catadupa…

O fim do anterior regime não foi um abrir de porta para uma revolução cultural como seria de esperar. O que falha na cultura portuguesa para que raramente signifique prestígio internacional?

Há meses, ao ler a correspondência de Sophia com Jorge de Sena, encontrei uma carta de Abril de 1976 em que ela escrevia que "o problema, a tragédia de toda esta revolução, é a sua incompetência cultural." Talvez... mas repare, se há área ou domínio em que Portugal existe, globalmente falando, é o da cultura - seja na literatura ou na arquitectura, no cinema ou na música, nas artes plásticas ou na dança… A cultura é um "trunfo", que um país com as raízes mundiais que Portugal tem podia ser muito mais potenciado.

Ao fim de 35 anos qual o veredicto para o 25 de Abril: culpado ou não culpado?

É importante que o clima de pessimismo que se vive não obnubile o essencial, que é o carácter democraticamente redentor do 25 de Abril. E não se responsabilize o 25 de Abril por aquilo que, colectivamente, não fomos capazes de fazer desde então. Só um novo desígnio nos tirará do pessimismo actual - a "Nova República" é uma proposta nesse sentido.

A presidência de Durão Barroso é criticada por não ter actuado de um modo suficientemente enérgico para que a UE lidere o processo de saída desta violenta crise. Concorda com a acusação de passividade de Sarkozy, por exemplo?
O "passivismo", essa espécie de entusiasmo na submissão a um suposto destino (a expressão é de Emmanuel Todd), é infelizmente um traço muito generalizado. A situação actual, a gravidade da crise que vivemos, impõe outra atitude, caso a Europa pretenda assumir-se como uma potência política, ao nível da primeira potência científica e técnica que ela efectivamente é. E, aqui, do que se trata é de a Europa ser capaz de dar o passo para o governo económico, para a criação de um espaço público comum e para a estruturação da sua dimensão cultural, no sentido lato do termo. Sem esse passo, é a própria unificação europeia que - e isso poucos o vêem ou, pelo menos, o dizem - pode estar comprometida.

Há quem diga que o projecto europeu está em perigo!

Por isso continuo a defender o referendo constitucional europeu, simultâneo em todos os países da UE, que instituísse o povo europeu como entidade política. E digo-o porque penso que a Europa chegou aos limites da sua construção pragmática, que consistiu em identificar-se com o seu mercado e em pôr entre parêntesis a sua natureza política e cultural. No fundo, apostou-se que uma Europa sem substância era o que melhor combinava com a globalização. Mas todos os sinais apontam, sobretudo desde o "não" de 2005, para o esgotamento desta orientação. A Europa continua, politicamente falando, por fundar.

A reeleição de Durão Barroso justifica-se?

A Europa precisa de audácia, de visão e de tenacidade - aguardemos pelas eleições para o Parlamento Europeu, de 7 de Junho, para saber o que pensam os europeus.

A sua nomeação para a UNESCO trará benefícios para além dos poucos a que estamos acostumados a retirar destes cargos?

Mais do que pensar em benefícios, temos que pensar nos deveres e nas responsabilidades de Portugal no concerto internacional. E a UNESCO é uma organização determinante no âmbito da educação, ciência e cultura, domínios de cuja relevância ninguém duvida. Isso mesmo leva a que hoje, mais de 60 anos passados sobre a sua fundação, muitos desejem que ela se consiga reinventar, tendo em conta os desafios inéditos que o mundo enfrenta. Também aqui se procura uma nova visão.

Onde estava no 25 de Abril de 1974?

Em Lisboa. Passei o dia entre a Baixa e a minha casa a "ver" a Revolução.
(DN, 25/04/089)